
Portuguese Edition
Literature
O Demônio Familiar
Portuguese BooksWhale Edition by José de Alencar
Um clássico de José de Alencar sobre sociedade, desejo, honra e mudança.
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Book introduction
O Demônio Familiar
O Demônio Familiar reúne personagens e conflitos que revelam as tensões de seu tempo e a força narrativa de José de Alencar.
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Preview chapterPrimeiro Ato — Cena PrimeiraRead preview
CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - Mano, mano! (Voltando-se para a porta.) Não te disse? Saiu! (Acenando.) Vem, psiu, vem!
HENRIQUETA - Não, ele pode zangar-se quando souber.
CARLOTINHA - Quem vai contar-lhe? Demais, que tem isso? Os homens não dizem que as moças são curiosas?
HENRIQUETA - Mas, Carlotinha, não é bonito uma moça entrar no quarto de um moço solteiro.
CARLOTINHA - Sozinha, sim; mas com a irmã não faz mal.
HENRIQUETA - Sempre faz.
CARLOTINHA - Ora! Estavas morrendo de vontade.
HENRIQUETA - Eu não; tu é que me chamaste.
CARLOTINIIA - Porque me fazias tantas perguntinhas, que logo percebi o que havia aqui dentro. (No coração.)
HENRIQUETA - Carlotinha!...
CARLOTINHA - Está bom, não te zangues.
HENRIQUETA - Não; mas tens lembranças!
CARLOTINHA - Que parecem esquecimentos, não é? Esquecia-me que não gostas que adivinhem os teus segredos.
HENRIQUETA - Não os tenho.
CARLOTINHA - Anda lá!... Oh! meu Deus! Que desordem! Aquele moleque não arranja o quarto do senhor; depois mano vem e fica maçado.
HENRIQUETA - Vamos nós arranjá-lo?
CARLOTINHA - Está dito; ele nunca teve criadas desta ordem.
HENRIQUETA (a meia voz) - Porque não quis!
CARLOTINHA - Que dizes?... Cá está uma gravata.
HENRIQUETA - Um par de luvas.
CARLOTINHA - As botinas em cima da cadeira.
HENRIQUETA - Os livros no chão.
CARLOTINHA - Ah! Agora pode-se ver!
HENRIQUETA - Não abrimos a janela?
CARLOTINHA - É verdade. (Abre.)
HENRIQUETA - Daqui vê-se a minha casa; olha!
CARLOTINHA - Pois agora é que sabes? Nunca viste mano Eduardo nesta janela?
HENRIQUETA - Não; nunca.
CARLOTINHA - Fala a verdade, Henriqueta!
HENRIQUETA - Já te disse que não: se vi, não me lembra. Há tanto tempo que esta janela não se abre!
CARLOTINHA - Bravo! Depois não digas que são lembranças minhas.
HENRIQUETA - O que? O que disse eu?
CARLOTINHA - Nada; traíste o teu segredo, minha amiguinha. Se tu sabes que esta janela não se abre, é porque todos os dias olhas para ela.
HENRIQUETA - Pois não...
CARLOTINHA - Para que procuras esconder uma coisa que teus olhos estão dizendo? Tu choras!... Por quê? É pelo que eu disse? Perdoa, não falo mais em semelhante coisa.
HENRIQUETA - Sim; eu te peço, Carlotinha. Se soubesses o que eu sofro...
CARLOTINHA - Como! Meu irmão é tão indigno de ti, Henriqueta, que te ofendes com um simples gracejo a seu respeito?
HENRIQUETA - Eu é que não sou digna dele; não mereço, nem mesmo por tua causa, uma palavra de amizade!
CARLOTINHA - Que dizes! Mano Eduardo te trata mal?
HENRIQUETA - Mal, não; mas com indiferença, com uma frieza!... Às vezes nem me olha.
CARLOTINHA - Mas antes, quando nos visitavas mais a miúdo, e passavas dia conosco, ele brincava tanto contigo!
HENRIQUETA - Sim; porém, um dia, tu não reparaste, talvez; eu me lembro... ainda me dói! Um dia vim passar a tarde contigo, e durante todo o tempo que estive aqui ele não me deu uma palavra.
CARLOTINHA - Distração! Não foi de propósito.
HENRIQUETA - Oh! foi! Desde então essa janela nunca mais se abriu. Agora posso dizer-te tudo... Eu o via do meu quarto a todas as horas do dia; de manhã, apenas acordava, já ele estava; antes de jantar, quando ele chegava, eu o esperava; e à tarde, ao escurecer.
CARLOTINHA - E nunca me disseste nada!
HENRIQUETA - Tinha vergonha. Hoje mesmo se não adivinhasses, se eu não me traísse.
CARLOTINHA - Deixa estar que hei de perguntar-lhe a razão disto.
HENRIQUETA - Eu te suplico! Não lhe digas nada. Para quê? Sofri dois meses, sofri como tu não fazes idéia. Uns versos sobretudo que ele me mandou fizeram-me chorar uma noite inteira.
CARLOTINHA - Mas por isso mesmo! Não quero que ele te faça chorar. Hei de obrigá-lo a ser para ti o mesmo que era.
HENRIQUETA - Agora... É impossível!
Preview chapterCENA IIPreview
EDUARDO, CARLOTINHA
EDUARDO - Pedro!... Moleque!... O brejeiro anda passeando, naturalmente! Pedro!
CARLOTINHA (entrando) - O que quer, mano? Pedro saiu.
EDUARDO - Onde foi?
CARLOTINHA - Não sei.
EDUARDO - Por que o deixaste sair?
CARLOTINHA - Ora! Há quem possa com aquele seu moleque? É um azougue; nem à mamãe tem respeito.
EDUARDO - Realmente é insuportável; já não o posso aturar.
Preview chapterCENA IIIPreview
Os mesmos, PEDRO
PEDRO - Senhor chamou?
EDUARDO - Onde andava?
PEDRO - Fui ali na loja da esquina.
EDUARDO - Fazer o quê? Quem lhe mandou lá?
CARLOTINHA - Foi vadiar; é só o que ele faz.
PEDRO - Não, nhanhã; fui comprar soldadinho de chumbo.
EDUARDO - Ah! O senhor ainda brinca com soldados de chumbo... Corra, vá chamar-me um tílburi na praça; já, de um pulo.
PEDRO - Sim, senhor.
Table of contents
Inside this edition
- 01Primeiro Ato — Cena Primeira
- 02CENA II
- 03CENA III
- 04CENA IV
- 05CENA V
- 06CENA VI
- 07CENA VII
- 08CENA VIII
- 09CENA IX
- 10CENA X
- 11CENA XI
- 12CENA XII
- 13CENA XIII
- 14CENA XIV
- 15CENA XV
- 16Segundo Ato — Cena Primeira
- 17CENA II
- 18CENA III
- 19CENA IV
- 20CENA V
- 21CENA VI
- 22CENA VII
- 23CENA VIII
- 24CENA IX
- 25Terceiro Ato — Cena Primeira
- 26CENA II
- 27CENA III
- 28CENA IV
- 29CENA V
- 30CENA VI
- 31CENA VII
- 32CENA VIII
- 33CENA IX
- 34CENA X
- 35CENA XI
- 36CENA XII
- 37CENA XIII
- 38CENA XIV
- 39CENA XV
- 40CENA XVI
- 41CENA XVII
- 42CENA XVIII
- 43Quarto Ato — Cena Primeira
- 44CENA II
- 45CENA III
- 46CENA IV
- 47CENA V
- 48CENA VI
- 49CENA VII
- 50CENA VIII
- 51CENA IX
- 52CENA X
- 53CENA XI
- 54CENA XII
- 55CENA XIV
- 56CENA XV
- 57CENA XVI
- 58CENA XVII
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